O mito da zona de conforto

tiger lying on ground
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Outro dia, no meu blog pessoal, fiz um post respondendo sobre uma dor de gestão que apareceu relacionada ao tema “aversão a mudanças”. No contexto da pessoa, essa aversão a mudança estava associada à chamada transformação ágil. Lá expressei um pouco da minha opinião sobre o assunto. Aqui eu espero mostrar o que a ciência tem a falar sobre isso.

Essa aversão à mudanças, também é rotulada de algumas outras formas. Temos alguns exemplos abaixo:

  1. A pessoa não está aberta a novos desafios
  2. A pessoa quer ficar na zona de conforto
  3. A pessoa não tem força de vontade
  4. A pessoa não tem ambição. Ambição no sentido de forte desejo de alcançar novos objetivos

Provavelmente eu já fui rotulado e tenho certeza que já rotulei pessoas dessa mesma forma. Principalmente quando eu estava mais envolvido no mundo da programação e era bem mais novo, ficava um pouco chateado quando outras pessoas não queriam fazer um sistema usando uma técnica ou metodologia diferente. Bastava acontecer esse tipo de situação que o fluxo era mais ou menos assim:

  • Alberto: Deixa eu te mostrar uma coisa nova que eu aprendi e quero usar
  • Outra pessoa: Ah, mas será que precisa disso mesmo? Já consigo fazer do outro jeito
  • Alberto: Eu sei, mas relaxa, vou te dar vários argumentos.
  • Alberto: Sequência de argumentos
  • Outra pessoa: Entendi. É, acho legal, mas no fim a outra tecnologia já resolve esse mesmo problema
  • Alberto: Você precisa sair da zona de conforto, tentar outras coisas que podem ser melhores.

Hoje em dia, provavelmente eu sou a pessoa que fica na zona de conforto em relação a tecnologia e um novo Alberto já está me rotulando.

O problema do rótulo

O problema em rotular uma pessoa como “aquela que não gosta de desafios” é que isso não faz sentido, olhando o contexto geral da vida. Ninguém é aberto a desafios para todas as áreas. E mais, você não é aberto nem fechado a desafios. Você está aberto ou fechado a desafios. Isso é completamente temporário. Vamos pegar alguns exemplos reais mostrando como o contexto exerce forte influência sobre esse estado da mente.

  1. A pessoa não consegue evoluir no trabalho, mas ela consegue ter a força de vontade necessária para seguir uma dieta restrita e manter a saúde e o corpo cada vez mais saudáveis.
  2. A pessoa é uma super funcionária, mas quando sai para uma festa não consegue puxar assunto com ninguém.
  3. A pessoa adora esportes radicais, mas no trabalho não gosta de desafios e fica sempre no mesmo lugar com os mesmos tipos de tarefa
  4. A pessoa é professora e fala com todo mundo na sala, mas no dia a dia ela não é de fazer muitos amigos

Provavelmente você deve ter vários outros exemplos sobre níveis de abertura a desafios diferentes, frente a situações diferentes, para uma mesma pessoa.

Então, em vez de fazer essa análise mais superficial baseada apenas em uma determinada área da vida, vamos tentar encontrar uma outra forma de olhar, mais contextualizada.

O papel da autoeficácia na sua vida

A palavra autoeficácia já apareceu aqui no blog diversas vezes. Se você ainda não leu nada sobre isso, recomendo voltar um pouquinho no post de Luísa sobre o assunto. O psicólogo Alberto Bandura é a pessoa que cunhou a palavra autoeficácia e é a referência sobre o assunto. No seu artigo original sobre o tema tem um trecho muito interessante:

Knowledge, transformational operations, and component skills are necessary but insufficient for accomplished performances. Indeed, people often do not behave optimally, even though they know full well what to do

Em tradução sugerida pelo google translate temos:

Conhecimento, operações transformacionais e habilidades de componentes são necessárias, mas insuficientes para performances realizadas. Na verdade, as pessoas geralmente não se comportam de maneira ideal, mesmo sabendo muito bem o que fazer

No artigo, logo no abstract também, tem mais informação interessante.

Self-percepts of efficacy influence thought patterns, actions, and emotional arousal. In causal tests the higher the level of induced self-efficacy, the higher the performance accomplishments and the lower the emotional arousal

De novo usando o google translate para traduzir, temos:

Autopercepções de eficácia influenciam padrões de pensamento, ações e excitação emocional. Em testes causais, quanto maior o nível de autoeficácia induzida, maiores as realizações de desempenho e menor a excitação emocional

Por que peguei trechos do artigo original? Justamente para mostrar que a percepção da pessoa sobre a sua capacidade de ser eficiente em determinado contexto é um dos maiores preditores de performance que você pode ter.

Além de fornecer uma boa estimativa sobre a performance da pessoa para determinado objetivo, a autoeficacia pode afetar diversos outros comportamentos.

  1. Maior abertura a novos desafios
  2. Maior controle das suas emoções e ações frente a uma situação de pressão
  3. Os erros tendem a ser interpretados como oportunidades de aprendizados
  4. Nível de esforço colocado frente aos objetivos
  5. Resiliência nos momentos de adversidade

Várias dessas características são buscadas para uma grande variedade de cargos dentro das empresas e todas elas têm ligação direta com a autoeficácia.

O que devemos fazer para melhorar nossa autoeficácia

Apenas reforçando o que já escrevemos aqui no blog, a autoeficacia é sempre contextualizada para uma determinada atividade, ninguém tem autoeficacia alta para tudo na vida.

Dada essa lembrança, Albert Bandura, no seu artigo de título “GUIDE FOR CONSTRUCTING SELF-EFFICACY SCALES“, em tradução sugerida pelo google translate, “GUIA PARA A CONSTRUÇÃO DE ESCALAS DE AUTO-EFICÁCIA”, sugere que a melhor maneira de aumentar a sua autoeficácia é “mestrar” aquela atividade.  Mestrar, aqui, significa realmente dominar aquilo. Só que como você vai saber se dominou mesmo? Quais perguntas você vai se fazer?

O mesmo artigo sobre a construção de escalas de autoeficácia, já no final, traz diversos exemplos de formulários de avaliação que poderiam ser tentados. Vou deixar alguns dos exemplos:

  1. Autoeficácia para a prática regular de exercícios
  2. Autoeficácia para a sua capacidade de alimentar-se bem regularmente
  3. Autoeficácia para a sua capacidade de dirigir
  4. Autoeficácia para problem solving
  5. Autoeficácia para sua capacidade de aprender sozinho

Esqueça os rótulos

Usar rótulo é muito tentador, já que é uma jeito extremamente fácil de classificar alguém e, como consequência, colocar todos parecidos no mesmo quadrado. Quando alguma pessoa é rotulada, principalmente de forma negativa, ela pode estar sendo sentenciada a perder diversas oportunidades. E quem é o(a) chefe é o(a) responsável por isso.

E não se engane, quando a pessoa é rotulada de forma positiva, por exemplo como sendo alguém sempre aberto(a) desafios, ela também pode estar caindo numa cilada. O(A) chefe pode entender que a tal pessoa vai estar apta a qualquer desafio e vai sempre acreditar que a performance vai ser boa. Quando a performance não sai como esperado, ninguém entende direito…

Criar formulários de autoeficácia está longe de ser uma tarefa fácil, mas hoje, em 2019, é o melhor jeito de você descobrir se tal pessoa realmente se sente capaz de buscar um objetivo. Claro que você ainda precisar ver a pessoa se provar na realidade e podemos falar sobre isso, só que numa próxima oportunidade.

Palestras e tech talks sobre o assunto

Caso você se interesse sobre o assunto, deixa um comentário ou fala comigo no twitter. Adoro o assunto e vou com o maior prazer na sua empresa conversar sobre isso :).

 

 

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