O caminho para a transparência real

railroad tracks in city
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Por que você deveria ler esse post?

Um dos pilares da gestão baseada na confiança é a transparência. No seu paper sobre a Neurociência das organizações altamente confiáveis, Paul J Zak começa a descrever este pilar da seguinte forma:

A transparência ocorre quando a informação é amplamente compartilhada com os colegas. Comunicações abertas e francas promovem a confiabilidade ao reduzir o medo e a incerteza sobre as estratégias da organização e planos.

No decorrer do artigo ele cita exemplos de empresas como Zappos, Whole Foods e eu vou fazer uma humilde contribuição falando também sobre a Buffer. Durante o restante do texto, eu vou tentar descrever o que algumas delas fazem e como facilitar a transparência. Também vou deixar minha opinião sobre os impactos dessa prática numa organização.

Quais informações eu devo liberar?

Antes de responder essa pergunta, eu gostaria de trazer mais uma definição para o pilar. Caso você for no google e pesquise por “define openness”(openness é o equivalente a transparência) você vai encontrar a seguinte definição formal:

falta de restrição; acessibilidade

Então qual informação eu deveria facilitar o acesso? Considerando o mundo ideal, a definição já responde: Todas.

Só que no mundo real nós sabemos que não é assim que funciona. As empresas, governos, times e pessoas possuem políticas diferentes em relação a transparência.

Como funciona na Buffer

Para contextualizar, a Buffer é uma empresa cujo objetivo é facilitar a gestão das mídias sociais de uma pessoa ou empresa.

Caso você acesse esse post deles verá que muita informação, considerada privada em outros lugares, é de livre acesso por lá. Vamos pegar alguns exemplos:

  1. Os salários de todo mundo podem ser acessados por uma planilha pública para o mundo. Inclusive o do CEO está lá.
  2. E-mails trocados por duas pessoas de um time tem uma lista de outras pessoas em cópia
  3. Todos os números da empresa são abertos. Você pode conferir o último post no blog deles. Eles disponibilizam números de todas as àreas.
  4. A fórmula de cálculo de salário é pública.

Como funciona na Zappos

A Buffer ainda é uma empresa que pode ser considerada pequena, comparando com as gigantes que temos por aí. Já a Zappos, um e-commerce focado em calçados, é uma empresa que foi comprada pela Amazon por mais de um bilhão de dolares.

Eles começaram a adotar um modelo de gestão conhecido como Holacracia. A timeline de adoção pode ser vista no próprio site deles. Para quem não conhece, este é um modelo de gestão que visa chegar no ponto onde uma organização é completamente auto gerenciável. A prerrogativa para isso acontecer é que que todas as pessoas que estão ali tenham um profundo conhecimento das informações, para que possam ter a chance de tomarem as melhores decisões.

Abaixo listo algumas informações que eu consegui acessar da Zappos.

  1. Carta do CEO sobre a junção com Amazon. Acalmando as pessoas em relação a junção, explicando um pouco do processo e informando que a cultura vai continuar a mesma.
  2. O diário do dia a dia do CEO (precisa fazer login no evernote). Aqui tem o que o dia a dia dele, super detalhado. Muitos emails e reuniões :).
  3. Documento não estruturado da Zappos falando sobre a chamada transparência radical.
  4. Prioridades do CEO para o ano de 2018

Como funciona em relação aos países

Você sabia que no Brasil e no mundo existem leis sobre o acesso à informação? Falando especificamente do Brasil, de acordo com nossa constituição:

todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado; (Regulamento) (Vide Lei nº 12.527, de 2011)

Transparência é um assunto que vai muito além do mundo empresarial. Vou deixar alguns tipos de informações que podem ser acessíveis:

  1. orientação sobre os procedimentos para a consecução de acesso, bem como sobre o local onde poderá ser encontrada ou obtida a informação almejada;
  2. informação contida em registros ou documentos, produzidos ou acumulados por seus órgãos ou entidades, recolhidos ou não a arquivos públicos;
  3. informação produzida ou custodiada por pessoa física ou entidade privada decorrente de qualquer vínculo com seus órgãos ou entidades, mesmo que esse vínculo já tenha cessado;
  4. informação sobre atividades exercidas pelos órgãos e entidades, inclusive as relativas à sua política, organização e serviços;

Deixar a informação realmente disponível

É importante ressaltar que apenas deixar as informações disponíveis não cumprem o papel relacionado ao pilar da transparência. As pessoas precisam saber como achá-las e também, muitas vezes, como interpretá-las.

Em relação a facilidade de acesso, podemos pegar aqui o exemplo da Buffer x Zappos. Enquanto que a Buffer faz um post com várias informações sobre as mais variadas áreas da empresa, a Zappos, pelo menos pelo que pude analisar, não oferece um jeito fácil. Perceba que eu deixei vários links para o Evernote cuja estrutura está longe de ser a mais fácil. Claro que eles podem ter um mecanismo melhor internamente. Só que facilidade de acesso é medida pelos olhos de quem acessa e não pelos olhos de quem libera.

Ainda em relação ao mundo de empresas privadas, muitas delas são sociedades anônimas.

Sociedade anônima é um modelo de companhia com fins lucrativos, caracterizada por ter o seu capital financeiro dividido por ações. Os donos das ações são chamados de acionistas e, neste caso, a empresa deve ter sempre dois ou mais acionistas.

Caso você trabalhe numa empresa deste estilo, pode ser interessante saber que elas são obrigadas a publicar seus balanços em intervalos regulares, publicamente. Você pode acessar o site http://balancos.imprensaoficial.com.br/Condiario.asp, colocar o nome real da empresa que você trabalha e tentar ler o balanço. Para que as informações contidas por lá sejam realmente entendíveis, é bom pedir ajuda para alguém da área contábil. Por sinal, essa ajuda poderia ser fornecida pela própria empresa.

Mesma coisa vale para o governo, nesse caso o do Brasil. Lá na lei 12527, a tal da lei do Acesso à Informação, no artigo quinto, tem a seguinte frase:

É dever do Estado garantir o direito de acesso à informação, que será franqueada, mediante procedimentos objetivos e ágeis, de forma transparente, clara e em linguagem de fácil compreensão.

É sempre bom lembrar que existe o Portal da Transparência, cujo objetivo é facilitar o acesso às informações que são públicas. Para entender um pouco mais de como funciona, você pode acessar essa página onde eles explicam melhor como portal funciona. Claro que aqui paira a dúvida sobre a legitimidade das informações mas, na minha opinião, é necessário partir do princípio que a informação é verdadeira. Por outro lado, quem é que sabe interpretar aquilo? Falando por mim, eu precisaria investir bastante tempo para entender de verdade para, só aí, ter alguma chance de criticar. O governo poderia oferecer cursos gratuitos sobre interpretação daqueles dados.

Reforçando, você precisa deixar as informações acessíveis, guiar o acesso e facilitar o entendimento. As três coisas precisam caminhar juntas para que a transparência realmente seja eficiente.

A percepção sobre a transparência

Uma outra questão importante sobre a transparência é o ponto de vista. A depender de quem você seja em relação à informação, sua opinião pode mudar, infelizmente.

Ponto de vista do buscador da informação

Muitas vezes você não é o ponto de origem da informação, você apenas quer saber como tudo está funcionando. Quando estamos nessa posição, geralmente, queremos transparência total.

Quando você é acionista de uma empresa, você quer saber sobre faturamento, planos futuros, satisfação dos funcionários, clientes etc.

Quando você é funcionário de um lugar, muitas vezes, você gostaria de saber como as promoções são realizadas, aumentos calculados, planos para o futuro, possibilidades de carreira(tudo bem que a carreira é sua, mas a empresa faz parte da trajetória) etc.

Ponto de vista do fornecedor da informação

Aqui é onde, muitas vezes, mora a divergência. A pessoa que possui a informação começa a pensar se ela deveria compartilhar tais detalhes. Questionamentos regulares:

  1. Nem todo mundo precisa saber de tudo;
  2. As pessoas não estão preparadas para lidar com isso;
  3. Essa informação vai gerar conflitos;
  4. Essa informação vai voltar contra mim e gerar questionamentos que não quero responder.

Basicamente, quem tem a informação, muitas vezes, quer controlar a narrativa. Você pode colocar em qualquer perspectiva, pessoal ou profissional.

Numa escala mundial, temos aqueles casos de filme. Um asteroide vai cair no planeta, comunico a população? Tivemos no Brasil o caso do sigilo sobre informações relacionadas a reforma da previdência, onde os detalhes sobre a motivação dessa decisão não estavam abertos a todos, mas ainda assim é algo que impacta toda a sociedade.

Pensando em serviços, temos a falta de transparência em relação à política de preços praticados. Como que a empresa chegou naquele preço? Ou quando você vai num mercado, qual o motivo de não termos acesso ao histórico de preços? Só falam quando o preço baixa, não poderíamos saber quando o preço sobe? De novo, controlam a narrativa e querem nos fazer enxergar da maneira que supostamente é a mais interessante. Apenas deixando claro, interessante não tem a ver com bom ou ruim. Algumas pessoas poderiam gostar de saber dos preços que subiram, outras não. Quem está controlando a narrativa pode achar que está fazendo o bem.

Transparência sobre o que é transparente e o papel da comunicação

Uma coisa muito interessante da lei de Acesso a Informação é que ela explica certinho quais são as informações acessíveis e como elas podem ser buscadas. Isso ajuda no encontro de expectativas entre o buscador e o dono da informação. Você entra no lugar sabendo o que pode ver e, consequentemente, no que deve ficar vigilante. Caso não encontre algo, pode questionar e tudo mais.

Não esqueça da comunicação constante durante o processo para deixar a informação que deseja disponível, acessível e com entendimento facilitado. Comunique, comunique e comunique! Use todos os meios que possuir, peque pelo exagero no começo e depois vá ajeitando a régua. Patty Mccord, ex Head de RH da Netflix, usa uma expressão que eu gosto muito: communication heartbeat. É como se fosse o batimento cardíaco da sua comunicação. Do mesmo jeito que nosso coração bate numa frequência, a sua comunicação interna deveria ter uma frequência. Eu recomendo olhar sempre para isso, em relação a todos os aspectos para falar a verdade.

Opinião: Transparência, divergência e inovação

Para mim, no fim, transparência facilita a inovação. Por que eu acho isso? Porque o input básico para qualquer pessoa inovadora é justamente o jeito que as coisas antigas eram feitas. A base da inovação é a criatividade e, ao contrário do que pode parecer, criatividade não parte do zero. Eu adoro uma palavra que meio que substitui criatividade, a combinatividade. Criatividade é realmente a combinação de vários inputs de uma forma diferente do que era feito até agora. E aí você pega essa combinação, embala e vende. Provavelmente você acabou de ser inovador(a). Claro que a prática não é simples :).

Aqui entra também a divergência. O medo do conflito, que obviamente pode ser causado pela facilitação no acesso a diversas informações, faz a gente divergir muito menos do que deveria no trabalho. E a divergência é um ponto central para o debate de ideias, posterior junção de visões e tudo mais. Pensando aqui no blog, eu já perdi a conta do número de vezes que eu e Luísa divergimos e, posteriormente, convergimos com uma ideia melhor.

Use a transparência para ganhar isso tudo. Capacite as pessoas para saberem lidar com situações difíceis. Nascemos com essa habilidade e vamos perdendo com o passar do tempo. Se você está do lado da busca da informação, questione o dono dela.

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